O projeto saiu do papel mais rápido do que eu imaginava. Entre a ideia do Made in Brasil e a nossa primeira viagem passaram só quinze dias. Foi muito intenso: começamos a desenhar o formato, fazer a curadoria das marcas, organizar a equipe e decidir onde seria o primeiro encontro. Quando percebemos, já estávamos fazendo as malas e desembarcando em Pipa, no Rio Grande do Norte.
A nossa curadoria começou olhando para o estado como um todo, e muitas das marcas que escolhemos vieram de Natal. Pipa entrou nessa história para a primeira experiência porque, além de estar perto da capital, tem uma natureza muito presente, praias lindas, gastronomia, aquele clima gostoso de cidade pequena e uma paisagem que eu já imaginava que renderia imagens bem diferentes das que costumo fazer em São Paulo.
Pipa também não era exatamente uma novidade para mim. Eu já tinha estado ali quase quinze anos antes e guardava poucas lembranças daquela primeira viagem, mas me lembrava de um lugar pequeno, pitoresco e cercado por uma natureza muito preservada. Voltar tanto tempo depois me deixou curiosa para ver o que ainda encontraria daquela Pipa que tinha ficado na minha memória. E, é claro, muita coisa mudou.
O distrito, que fica em Tibau do Sul, cresceu, ganhou novos hotéis, pousadas e restaurantes, teve as ruas asfaltadas e se tornou um destino bem mais movimentado. Ao mesmo tempo, foi muito bom perceber que a natureza continua tão presente e que ainda existe uma identidade muito própria por ali. Ela aparece na paisagem, na arquitetura, nas praias e no jeito de viver das pessoas. Mesmo com todas as mudanças, reconheci aquele ambiente de que ainda me lembrava, mas eu também havia mudado.
Dessa vez, cheguei com outro olhar e com um motivo diferente. Além de redescobrir Pipa, eu viveria pela primeira vez tudo o que tínhamos imaginado para o Made in Brasil. As conversas, os encontros e tudo o que vi pelo caminho deram outra dimensão à viagem. Aos poucos, percebi que o Made in Brasil seria muito maior do que eu imaginava.
Em Pipa, depois de provar a culinária, vestir as marcas que selecionamos, conhecer algumas das histórias por trás delas e ver de perto o lugar, entendi que havia mais para explorar em cada parada. A moda vai continuar sendo o ponto de partida, porém agora sei que ela pode abrir outros caminhos para conhecer também as pessoas, a cultura e os diferentes jeitos de fazer de uma região.
Em um dos dias, percorri parte dessa paisagem em um passeio de buggy, passando pelas falésias e por grandes trechos de areia. É um passeio que deixa a gente muito perto de tudo: o caminho é aberto, o vento bate no rosto e a paisagem vai mudando ao redor.
Aproveitei para fotografar alguns looks e ficou muito clara, para mim, a conexão entre moda e natureza. Os tons terrosos das falésias, a areia, o verde da vegetação, o azul do mar e do céu criavam cenários bem diferentes daqueles em que costumo trabalhar onde moro, em São Paulo. Estou acostumada com fotos internas, estúdios e uma paisagem mais urbana. Em Pipa, era como ter vários estúdios naturais à disposição, cada um trazendo uma possibilidade diferente para o que eu vestia.
Podemos olhar cada peça de maneiras distintas, o que diz muito sobre o que sempre me atraiu nesse universo. Para mim, a moda é infinita, é multi. Não gosto de pensar em regras muito rígidas porque sempre existe espaço para criar, misturar, experimentar e se surpreender com o resultado.
Uma peça pode carregar uma técnica artesanal que atravessa gerações ou nascer de uma criação totalmente contemporânea. E isso muda também ao encontrar corpos, personalidades ou cenários diferentes. Foi um pouco do que senti fotografando em Pipa.
Moda também é liberdade, uma relação que carrego comigo desde a infância. Eu era bailarina e me lembro perfeitamente do quanto os meus olhos brilhavam quando participava da criação das fantasias de cada personagem. Pensar nos detalhes, escolher os tecidos, combinar as cores, imaginar os recortes, os volumes e os acessórios… Eu adorava tudo aquilo. E depois vinha a melhor parte: vestir a fantasia e sentir que, de alguma forma, eu também me transformava no personagem.
Comecei a entender a moda por aí, antes de saber explicar o que significava para mim. Até hoje acredito nesse poder de uma roupa de mudar como a gente se sente, o humor, a postura e a energia. Tem dias em que você veste alguma coisa e parece que aquilo já muda um pouco como você sai de casa.
Com o tempo, passei a me interessar também pela história que as peças carregam. Quando você sabe a técnica, conhece a mão que fez e entende um pouco do processo de criação, a relação muda. Mas não preciso conhecer toda essa história para me encantar. Às vezes, eu só vejo algo lindo e quero vestir. Consigo encontrar arte em uma peça de um estilista autoral e em uma criação de uma grande maison.
Depois, conhecendo melhor as marcas que fizeram parte dessa primeira curadoria, comecei a perceber algumas características que apareciam em muitos desses trabalhos. A produção em menor escala, o feito à mão e um ritmo naturalmente mais lento estavam presentes em várias delas. É uma lógica muito próxima do slow fashion, uma moda que olha com mais cuidado para como e por quem as peças são feitas, priorizando produções mais conscientes, éticas e pensadas para durar.
Vi isso no crochê, na renda de bilro, na palha e em outros trabalhos manuais presentes na cultura potiguar há muito tempo. São técnicas que carregam tempo, história e identidade, e que hoje têm muito a ver com o que a moda busca: peças exclusivas, produções menores e um trabalho que valoriza a mão de quem faz. Existe um luxo muito próprio nisso. Um “luxo descalço”, como gosto de pensar, que está na exclusividade, no trabalho manual e no prazer de encontrar algo especial e saber de onde veio.
Isso tudo é o que quero continuar descobrindo nos próximos destinos – e em breve conto para vocês qual será a próxima parada. O Brasil tem uma riqueza que aparece de muitas maneiras, das peças que vestimos à gastronomia, ao artesanato, à cultura e às histórias de quem cria. Cada região tem seus materiais, ingredientes, paisagens, tradições e jeitos de fazer. Quero conhecer essas pessoas, acompanhar de perto o trabalho, entender diferentes processos de criação e olhar para o que está sendo criado hoje.
Nas próximas viagens, quero chegar ainda mais perto: visitar os lugares onde essas peças nascem, conversar com os criadores e entender melhor as histórias que existem antes de uma roupa chegar até mim. Não quero chegar perguntando só “o que tem aqui que vale a pena conhecer?”. Quero saber quem faz, como faz e por quê. Quero entender o que cada lugar consegue contar sobre quem somos.
Do Rio Grande do Norte, de Pipa, sigo com esse olhar mais atento e com muita curiosidade pelo que ainda vou encontrar. Levo as histórias que ouvi, as pessoas que conheci e uma ideia mais clara do Made in Brasil: ir até lá, olhar com atenção, conversar com quem faz e encontrar algo que vale a pena você conhecer.
Essa foi a nossa primeira parada. Se cheguei pensando nas marcas e nos produtos, voltei pensando em quem está por trás deles. É essa gente que quero conhecer pelo Brasil.
O que vesti, visitei e encontrei
Sombra e Água Fresca Hotéis (@sombraeagua)
O hotel foi a minha casa durante os dias em Pipa, um lugar maravilhoso para relaxar. Hoje, o espaço reúne propostas de hospedagem na região da Praia do Amor, entre hotel, resort e outras acomodações.
Cicchetti Restaurante (@cicchettipipa)
Com uma cozinha de referências italianas e mediterrâneas, foi uma das experiências gastronômicas da viagem. Do que eu provei lá, um dos destaques foi o ravioli trufado, recheado com cogumelos e trufas negras. Para acompanhar, vale conhecer o Amor de Pipa, um drink autoral da casa.
Matersol (@matersoloficial)
Com algumas décadas de experiência, a marca trabalha com moda praia e traz para as suas peças referências do tropicalismo e da cultura potiguar. Um detalhe que adorei foi a possibilidade de personalizar os biquínis, combinando modelos, cores e tamanhos diferentes.
Juraci Lira (@juracilira)
Com um trabalho autoral, a Juraci Lira ficou conhecida pela atenção à modelagem, à alfaiataria e aos tecidos, mantendo uma relação muito próxima com o fazer local e com uma moda produzida de modo mais consciente. Vestir Juraci em Pipa foi vestir um pouco dessa história da moda do estado.
Nossalencar (@nossalencar)
Por trás da marca estão as irmãs Rafaelle e Renata, com uma história que começou pelo crochê e foi ganhando novas camadas. Vieram as pedrarias, as aplicações, as plumas, as franjas, as diferentes texturas e cores, construindo uma identidade única que mistura o trabalho manual a uma moda contemporânea e cheia de personalidade.
Sheila Morais (@sheilamoraisoficial)
São muitos anos de trabalho e peças únicas que combinam técnicas de joalheria para transformar metais e misturar ouro e prata a esmaltes, cristais e resinas. Adorei todos os acessórios que usei!
Ótica LOU (@oticalou) e Kênia Marques (@keniamarqueseyewear)
CEO da Ótica LOU, a Kênia faz óculos e relógios incríveis que combinam com a moda potiguar. Ela começou vendendo de porta em porta até transformar a paixão em um negócio. Em 2026, a marca ganhou um novo capítulo com a Kênia Marques Eyewear, uma linha própria de óculos.
George Azevedo Arte (@georgeazevedo.art)
Ele é estilista, artista plástico e produtor de moda potiguar, com um trabalho que passa pelo upcycling, o reaproveitamento de peças, pela pintura à mão e pelo crochê produzido em parceria com artesãs.
Gabi (@atelie__gabi)
Com bolsas feitas à mão, uma a uma e em pequenas tiragens, a Gabi mistura técnicas artesanais e referências litorâneas a elementos mais urbanos. A marca também escolheu não trabalhar com couro de origem animal e usa materiais como algodão e couro sintético. Gostei especialmente do cuidado com os detalhes: cada bolsa chega acompanhada de uma carta ilustrada com o croqui da peça e uma mensagem da estilista sobre a criação.
YSA (@ysa.oficiall)
A YSA nasceu da paixão pela moda autoral e aposta no cuidado artesanal com a construção de cada peça. A marca combina design refinado, versatilidade e uma estética que equilibra força e sofisticação, com criações pensadas para acompanhar diferentes momentos, dos looks urbanos e marcantes às produções para ocasiões especiais.